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"Que haja luz". Sobre a invisibilidade do trabalho feminino

“Que haja luz” disse o Criador, pronunciando a Palavra sobre o caos primitivo sobre o

qual pairava a Ruah – o sopro e espírito da vida. E luz houve que iluminou a obra que

se seguiria e que culminaria na criação do Adão– o humano feito do barro em cujas

narinas foi soprado o espírito divino – e que saiu das mãos do Criador com as

diferenças inscritas em sua identidade: macho e fêmea.

Os seres humanos começaram a cultivar e transformar o mundo criado. Ou seja, a

trabalhar. E dividiram esse trabalho. O homem – Adão - caçaria e pescaria para

alimentar os seus e faria a guerra para defender a pátria. A mulher – Eva – ficaria em

casa e cuidaria dos filhos que procriaria em seu ventre e alimentaria com seus seios

túrgidos de leite. Quando crescessem esses que um dia foram pequenos, a mãe

continuaria a cuidá-los, cozinhando a comida a ser repartida entre os membros da

família, lavando as roupas que Adão e os filhos usassem, limpando a casa onde todos

morassem. Também cuidaria de seus pais e também dos sogros quando

envelhecessem e não pudessem mais valer-se por si mesmos. Se alguém adoecesse,

ali estaria Eva cuidando de todos em todo momento.

Durante muito tempo assim foram entendidas as identidades humanas e a divisão de

suas funções na sociedade: o homem trabalha e ocupa o espaço público, enquanto a

mulher se restringe ao privado e cuida da casa e da família. As coisas, porém,

começaram a mudar para a mulher que, no século passado, necessitou ou decidiu por

vontade própria sair do espaço privado, entrar no mercado de trabalho e, portanto,

dividir o espaço público com o homem. Assim, muitas mulheres buscaram um trabalho

remunerado, acederam a diferentes carreiras e profissões, ou entraram no mercado

informal. Deixaram o recinto doméstico e integraram a busca por um emprego que

lhes garantisse a sobrevivência e contribuísse para a renda familiar.

Porém, de volta à casa após um dia em uma atividade profissional por vezes muito

cansativa e exigente, deviam essas mulheres fazer dupla jornada e continuar a

trabalhar, realizando as tarefas de antes e de sempre: cozinhar, dar de comer, lavar,

passar e limpar, mesmo após passar o dia inteiro trabalhando. A divisão do trabalho

entre homem e mulher continuou. Apenas a mulher acumulou mais uma jornada

laboral àquela que já exercia. E, enquanto ela trabalhava e assumia espaços e

obrigações profissionais, o homem pelo contrário, não assumia nem dividia com ela as

tarefas domésticas.

Essa situação não foi, no entanto, reconhecida. Todo o esforço e o cuidado exercidos

pela mulher, seja profissional e remunerado no mercado de trabalho, seja informal ou

não remunerado, em casa cuidando da família e dos a ela agregados não tem sido na

verdade considerado como trabalho. Trata-se de algo invisibilizado e desconsiderado

pela sociedade como um todo, que seguiu crendo e afirmando que a divisão desigual

do trabalho e a consequente invisibilidade da mulher que o exerce em qualquer âmbito

seria algo normal, adequado à natureza e à diferença entre os gêneros.

Hoje vivemos tempos de novos paradigmas. A atitude diante do mundo e da vida

baseada na conquista, na eficácia e no êxito a qualquer preço gerou uma crise

planetária e antropológica. As novas gerações já não se sentem representadas por

esses valores. Emerge então uma nova valorização do cuidado e se descobre que na

verdade as mulheres já o vivem como paradigma em suas vidas há muito tempo. É

necessário que o trabalho que exercem nas fronteiras do espaço doméstico seja

visibilizado e valorizado. Que haja luz sobre essa realidade de tantas mulheres que

constitui um dos pilares da sociedade e mesmo da humanidade.

E assim o tema da redação do ENEM que levou mais de 4 milhões de jovens a

realizarem as provas que poderá levá-los às universidades versou sobre essa questão

com este título: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de

cuidado realizado pela mulher no Brasil”. Os desafios são muitos. Mas é bom e

positivo ver que os futuros universitários e jovens profissionais deste país estão

pensando e escrevendo sobre eles.

Que haja luz sobre a invisibilidade feminina não apenas no campo profissional, mas

em todas as dimensões da vida. É mais do que tempo de pôr em prática o sonho do

Criador que criou o humano macho e fêmea para uma vocação e um destino de ajuda,

parceria e igualdade. Que haja luz e que o que era escondido se torne visível e brilhe

para inspirar as novas gerações que desejam e merecem um futuro melhor.

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