O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Há dias e momentos na vida que nos marcam para sempre. Aqueles
momentos em que todo mundo se recorda de onde estava e o que fazia. Assim
foi para mim em algumas ocasiões.
Por exemplo, quando o presidente Getúlio Vargas se suicidou no Palácio
do Catete. Corria o ano de 1954 e eu tinha cinco anos de idade. Mas aos meus
ouvidos interiores ressoa até hoje o grito de meu avô de ouvido colado ao rádio:
“O Getúlio suicidou-se”. E minha avó, compadecida: “Ah, coitado do velho”.
Muito mais tarde fui entender mais o que significou aquela bala que penetrara o
coração do presidente, desferida por mão própria. E as circunstâncias que o
levaram a “sair da vida para entrar na história”;
Em 1963 eu tinha 14 anos e estava em casa, em meu quarto,
estudando. Ouvi o telefone tocar e minha avó atender. E depois suas perguntas
aos gritos: “Não é possível. O Kennedy? Um tiro?” A televisão pouco depois
passou a mostrar as imagens do belo e jovem presidente em Dallas com a
primeira-dama elegante e toda vestida de cor de rosa. E depois o sangue que
cobria o interior do carro aberto no qual percorria a cidade texana e o tailleur
Chanel cor de rosa de Jackie todo ensanguentado. Em minha casa Kennedy era
admirado e venerado. Presidente católico, pai de família, três filhos etc.
etc. Posteriormente os etc. apareceram maiores do que a narrativa oficial. E
soube-se de seus casos infinitos, das traições pessoais e públicas. E foi Marilyn
Monroe, e foi Vietnam e mais que apareceu desvelando a ambiguidade do jovem
descendente de irlandeses, louro e concentrado, rezando devotamente na
catedral de Saint Patrick.
No dia 1 de abril de 1964 eu tinha 15 anos. Criada em família
anticomunista e lacerdista, cercava-me o medo de que o presidente João Goulart
levasse o Brasil ao comunismo. Como antes já se temia quando Jânio Quadros,
presidente ao qual sucedera, condecorara o revolucionário cubano Ernesto Che
Guevara. Assim, quando as tropas do General Mourão chegaram ao Palácio
Guanabara e a Revolução ali se instalou, participei dos festejos que celebravam
o Brasil livre do perigo comunista.
No colégio participava de movimentos estudantis como a JEC e aprendia
sobre os kibutzim em Israel. Começava a me abrir para as questões sociais e
políticas. Mas ainda acompanhei minha mãe e minha avó nas marchas pela
família antes do dia 1 de abril daquele ano, acreditando que os comunistas
acabariam com a religião, com a Igreja e com tudo aquilo em que
acreditávamos. Naquele dia de 1964 em minha casa o clima era de vitória e eu
participei da festa.
O tempo passou e o presidente Castelo Branco morreu em um obscuro
acidente de avião. Atravessei os estudos clássicos, que eram o ensino médio da
época vendo militares sucedendo-se na presidência da República. No cursinho
pré-vestibular, o querido e recordado Professor Manuel Mauricio nos ensinava
uma outra história, diferente da oficial que como meninas de colégio tradicional
aprendêramos. Entrei na universidade no ano de 1968. E outro mundo se
apresentou diante de meus jovens olhos.
A polícia contra os estudantes na rua. Nós do grupo de teatro do
departamento de Comunicação Social ensaiando a peça “Os pequenos
burgueses” no teatro Ginástico vendo tudo pela janela, com medo de sair. O
jovem Edson Luis assassinado no restaurante Calabouço. O AI 5
proclamado. Nós com medo na universidade. Medo de falar, de sair, de
conversar. Cada interlocutor podia ser um delator e as salas de aula eram
terrenos minados.
Nunca esquecerei o dia em que levaram minha grande amiga que era
presidente do Diretório Central dos estudantes. Ela andava sumida,
comprometida na militância. Um grupo entrou na sala de aula e comunicou que
havia sido presa. As recordações do dia 1 de abril de 1964 tomaram outro viés
e outro rumo e começaram a ser lidas em outra chave.
Não era revolução, era golpe. Não era libertação de um perigo, era
arbítrio. Não era defesa dos valores em que acreditávamos. Era pisoteamento
da liberdade e agressão aos direitos humanos. Naquele longínquo dia eu me
lembro onde estava. Mas a partir daí passei a estar e situar-me em outro lugar.
Hoje, 60 anos depois, vejo que as lutas e opções nas quais se
comprometiam tantos colegas, companheiros e professores eram justamente
pelos valores do Evangelho no qual acreditava. Eram pela justiça, pela liberdade,
pela igualdade e dignidade. Em 1977, grávida de minha terceira filha, fui
trabalhar na Conferência Episcopal, em sua sede da Glória. Ali presenciei
maravilhada minha Igreja denunciando as torturas e a violência, ajudando jovens
do movimento estudantil do Brasil e de outros países como Chile e Argentina a
exilar-se na Europa. Os bispos eram a única força que fazia frente à ditadura
militar.
Naqueles anos ainda de chumbo nasceu minha vocação teológica. Hoje,
a teologia que faço e que penso traz a marca daquela segunda conversão a uma
fé adulta e comprometida. E aqui estamos, hoje, procurando a fidelidade às
opções fundamentais apesar das ambiguidades e das eventuais
infidelidades. Aqui estamos chamando as coisas pelo nome. Aqui estamos
procurando somar nossa luta à luta de todos que desejam um país livre da
pobreza e da desigualdade que o impedem de levantar a cabeça. Que a
experiência desses 60 anos continue nos ensinando a declinar o belo e sempre
tão ameaçado alfabeto da democracia.
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