O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Que ano duro e difícil para o povo brasileiro, esse 2022 que se aproxima do fim. Quanta
angústia, quanta dor, quanto medo vivido, quanta ansiedade reprimida. Após dois anos de uma
pandemia que a todos confinou e tantas perdas dolorosas gerou, parecia que no início do ano
anunciava-se uma trégua. As vacinas existiam e estavam disponíveis, muitos as tomamos,
sentíamo-nos protegidos.
Porém nesse momento a “outra” pandemia – ou seria a mais real de todas, a única que
realmente existiu? – mostrou seu rosto sombrio. E a política polarizada e enraivecida dividiu o
país e o povo, rompendo relações e instaurando um clima ameaçador no cotidiano dos
brasileiros. A inflação, a subida dos preços, as dificuldades muitas de cada dia pareciam
pequenas, menores, diante da terrível perspectiva de que poderíamos ser obrigados a viver mais
alguns anos de opressão, impiedade e violência. E talvez, com mais tempo pela frente, essa
desolação maior se instalasse e permanecesse roubando-nos para sempre a alegria.
A eleição aconteceu e parecia que a vitória acontecida exorcizava os fantasmas. No
entanto, o que se vive agora, neste tempo posterior às urnas, continua a ser obscurecido e
ameaçado por manifestações que bloqueiam estradas, impedem o direito de ir e vir, decretam
que filhas não podem dar o último abraço à mãe que está morrendo em hospital distante;
bloqueiam a ida de um jovem à rodoviária para tomar o ônibus que o levaria à cirurgia que lhe
devolveria a visão.
Grupos revestidos com a bandeira brasileira se aglomeram diante de quartéis ou em plena
rua, pedindo a intervenção militar em nome da democracia. O nome de Deus é invocado a cada
momento, seja ao lado de outras palavras de ordem como pátria e família, seja simbolizado em
celulares postos no alto de cabeças na absurda intenção de comunicar-se com seres
extraterrestres para que concedam a graça do estado de exceção em nome da liberdade.
Tudo isso leva a desejar mais ardentemente que venha o que se espera: a paz, a vida em
abundância, a alegria. E a buscar ansiosamente sinais desse estado de coisas, por mínimos que
sejam. Porém, em meio a essa sagrada busca notícias de partidas abruptas de seres admirados
e amados por todos, que ajudaram a dar ao Brasil sua identidade, trazem outra vez a dor: Gal
Costa, a baiana linda de cabelos negros e cacheados, boca vermelha e voz afinada cai fulminada
por um infarto em sua casa. Erasmo Carlos, o gigante gentil, o tremendão amado que embalou
juventudes e brasileiros de todas as idades, é derrubado por uma doença já instalada em seu
corpo e diz adeus.
Como viver o Advento nesse clima em que parece que nada vem e tudo se vai. Vai-se o
bem-estar, o sentir-se livre, as referências afetivas. E o vazio parece instalar-se com ares
sombrios de quem veio para ficar. E, no entanto, uma vez mais, somos chamados a voltar-nos
para a espera de quem vem. De quem disse que vinha e fielmente vem a cada ano, porque na
verdade já veio na história humana há mais de dois mil anos. E vem a cada dia para todo homem
e mulher que seja capaz de abertura ao mistério e esteja em busca do sentido maior da vida.
A poesia de mais um artista que graças a Deus se encontra vivo entre nós – Alceu Valença
– nomeia a expectativa que insiste em habitar-nos, apesar de todos os percalços, as trevas e o
medo.
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Como podemos crer nisso? Como, se tudo ao nosso redor parece desmentir a existência
desses sinais e dessa vinda. Como se não enxergamos sinal algum? E, no entanto, a voz do anjo
sussurrou a uma jovem que ela seria mãe do Salvador.
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Na casa de uma jovem moça em Nazaré da Galileia, o mensageiro de Deus chegou
dizendo notícias de começos e boas novas. A voz do anjo sussurrou ao ouvido de Maria, noiva
de José o carpinteiro. E ela, embora perplexa, acreditou e se dispôs a ser a serva do Senhor e a
tornar-se morada de Sua Palavra. Escutando os sinais que o anjo trouxe, seu corpo engravidou
do mistério que anuncia que Deus não se esqueceu da humanidade e uma vez mais foi fiel a seu
povo.
Por isso, hoje nosso povo está convidado a escutar esses sinais prenhes de esperança. O
anjo sussurra e convoca a estar atentos aos sinais da chegada de quem traz uma vez mais a todos
o amor, a união e a paz. Escutar esses sinais é acreditar.
Que tu virias numa manhã de domingo.
Os sinais trazidos pelo mensageiro da alegria e pelo ventre grávido da jovem mãe nos
convidam com firmeza e delicadeza a crer, acolher e anunciar sua vinda por cima dos telhados,
no fundo dos poços, nos grotões da miséria, no aconchego das casas e nos sinos das catedrais.
Eu te anuncio nos sinos das catedrais.
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