O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Acompanhar pela TV e pela grande imprensa os episódios terríveis do dia 8 de janeiro
de 2023 traz sentimentos misturados e a perplexidade de estar diante de um fato no
mínimo complexo. Por um lado, o espanto de ver como se chegou àquele nível de
vandalismo no dia seguinte à festiva celebração da tomada de posse do novo governo
eleito. O Brasil respirava e se orgulhava do que estava começando a viver novamente:
liberdade, respeito, justiça priorizada, diversidade e inclusão. Por outro, a consciência
da profunda polarização que rachava o país em dois. Manifestada no resultado
apertado das eleições, essa rachadura profunda fez a festa da democracia durar
pouco. Agora, uma semana depois, a violência e a intolerância escancaravam sua
boca desdentada e sanguinolenta na violência que se abateu sobre os símbolos dos
poderes da república.
Recordo o desanimo sentido por mim e por tantos ao presenciar aquelas cenas
macabras de desrespeito a tudo que o país possuía de bom, de belo, de justo. Nem
obras de arte foram respeitadas e se tornaram igualmente vítimas do vandalismo
desesperado que se negava a aceitar o resultado das urnas e lançava-se feroz sobre
os três poderes, sobretudo o judiciário.
A multidão que naquele dia invadiu a esplanada e entrou nos palácios e edifícios
públicos era igualmente inexplicável e bizarra. Ao lado de senhores e senhoras de
minha meia idade e até mesmo nela mais avançados, com seus cabelos brancos e
roupas comuns e correntes, viam-se jovens que utilizando sua força física quebravam
vidros, móveis, paredes e depredavam o patrimônio público. Todos em aliança, todos
colaborando, construindo uma impossível e macabra (des)harmonia para expressar
uma mesma coisa: seus sentimentos antidemocráticos. Perplexos estivemos e até
hoje estamos ao ver quantos e tantos inimigos a democracia tem neste país que
conseguiram organizar e levar a cabo uma tentativa de golpe daquele porte, invadindo
e deflorando a recém consagrada aliança do povo com uma nova etapa da sua
história.
Não concordavam com os resultados das eleições, questionavam as urnas eletrônicas,
e em lugar de tomar as vias políticas e pacíficas para manifestar seus sentimentos,
optavam pelo quebra quebra, pelo vandalismo e pela truculência. O desfecho
anunciou-se terrível e mortal em mais de um momento. Se não houvesse serenidade,
calma, decisões tomadas com sangue frio e sem ferir as instituições e seus rituais e
liturgias, não se pode sequer imaginar quantas vítima fatais poderiam neste momento
manchar o imaginário brasileiro. Se as forças da ordem houvessem sido acionadas
irresponsavelmente, hoje o Brasil estaria em um lamento coletivo e depressivo,
enfrentando pranto sobre perdas e pouco ou nenhum ganho.
O que celebramos hoje é, sim, uma vitória da democracia. E por isso nos alegramos e
damos graças a Deus. A manifestação foi contida, responsáveis presos. Alguns já
receberam sentenças outros aguardam julgamento. Tudo dentro da ordem e do
respeito que a mesma democracia exige. Por isso se pode celebrar a verdadeira festa.
Aquela que ritualiza um desenrolar de atos e fatos que se mostraram respeitosos e
reverentes ao maior patrimônio que o país tem: seu povo.
Em um momento em que o mundo enfrenta inúmeras guerras, algumas terríveis, seja
porque se dão entre irmãos da mesma etnia, seja porque seu início já se dá com
matança, crueldade, massacre e provoca reações ainda mais violentas desses
mesmos atos o Brasil é um exemplo para o mundo. A dignidade e serenidade do
governo em sua atuação, diante da agressão repentina e inesperada foi realmente
admirável.
Um ano depois, o processo continua. Prisões foram realizadas, sentenças proferidas,
outras aguardam julgamento. A justiça segue seu curso sem ferir a democracia nem a
dignidade do povo brasileiro. Talvez seja essa a maior lição a aprender desta data que
ficará marcada na história do Brasil: 8 de janeiro de 2023. A lição de que não se
defende democracia com violência desmedida e agressões truculentas. Defende-se
com institucionalidade, com decisões firmes e ancoradas no respeito à liberdade e às
instituições.
Um ano depois: a democracia brasileira pode ser jovem e incipiente, mas está mais
robusta agora. E isso permite ter esperança.
También te puede interesar
Lo último
La sabiduría del corazón
Corazón pensante para humanizar
Cuidar cuando no se puede curar
Nunca incuidables
Morir humanamente, morir acompañado
Morir con dignidad
Sanar, acompañar, humanizar
Medicina y cuidado