O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
A sexualidade é uma dimensão constitutiva do ser humano e, ao mesmo tempo, algo
que sempre o questionou ao longo dos tempos. Por atingir todas as dimensões da
identidade humana, levantou questões conflitivas e críticas, assim como inspirou as
mais belas produções poéticas e artísticas da humanidade. Com relação à religião, a
sexualidade tem uma história de diálogo e confronto que até hoje marca a vivência de
fé das pessoas e das comunidades religiosas.
Alguns autores refletiram sobre essa dimensão antropológica fundamental, seja na
história geral ou na história específica do cristianismo, religião predominante no
Ocidente. O britânico Peter Brown em seus inúmeros e importantes trabalhos ressalta
a importância da questão da sexualidade na complexa construção do poder dentro da
organização do Cristianismo. Em sua reflexão encontram-se elementos tais como a
relação entre sexualidade e espiritualidade, incluindo aí tudo que diz respeito à
continência sexual, jejum, ascese e penitência. Um de seus argumentos é que a
desconfiança dos Padres da Igreja em relação à sexualidade nos primeiros séculos foi
uma reação contra a libertinagem do Império Romano tardio, onde o cristianismo viveu
seus primeiros momentos e se organizou como proposta.
Santo Agostinho foi um dos pensadores cristãos que desenvolveu o tema da religião e
da sexualidade. Seus escritos trouxeram algo novo à visão dominante nos círculos intraeclesiais. Tratou de questões delicadas, como a virgindade, castidade, fornicação e
casamento elaborando elementos de uma moral sexual cristã. Seu pensamento
influenciou e moldou teoria e prática da Igreja. Da mesma forma, a visão agostiniana,
embora tenha predominado até os dias de hoje na teologia moral e no pensamento
eclesial, recebeu diferentes interpretações ao longo do tempo.
A Reforma Protestante trouxe novidades significativas para a compreensão da
sexualidade que existia na Idade Média. A recuperação do significado original da prática
da castidade e da virgindade enraizadas no texto bíblico e com ela a valorização e a
aceitação do casamento tanto para leigos quanto para clérigos, foi uma das mudanças
mais significativas que a Reforma introduziu na vida cristã nas fronteiras entre a Idade
Média e a Modernidade. Nesse aspecto, Martinho Lutero faz uma importante
contribuição para a compreensão teológica cristã da sexualidade humana, ampliando-a
para além de sua compreensão anterior.
A corrente dominante no Ocidente hoje concebe a sexualidade como um direito
individual: entre adultos que consentem com o contato e a relação sexual entre si e
vivem um código em que a libido é lícita. A moral cristã, diante dessa concepção, adota
uma posição contracorrente, ao continuar sustentando que existem leis naturais e
divinas - que também seriam objetivas e cognoscíveis - que delimitam o espaço do
permitido e do proibido no que diz respeito à sexualidade. O consentimento individual
não seria suficiente para delimitar uma prática proibida por essas leis. Devido a isso,
muitos cristãos se sentem rejeitados ou excluídos de uma Igreja que lhes propõe
práticas nas quais eles não se veem contemplados. Ou então sentem-se
desconfortáveis diante de uma concepção quase que meramente jurídica da prática da
sexualidade que não se coadunam de forma positiva com a vivência existencial da fé e
a experiência espiritual da Transcendência Divina como experiência de amor e
misericórdia.
Diante disso, é urgente voltar, parece-nos, ao texto bíblico do relato da Criação que
possibilita uma reflexão teológica sobre a condição humana sexuada. O texto do
Gênesis diz que Deus criou o homem macho e fêmea: "Ele os criou à imagem de Deus
e os criou macho e fêmea "ish ischah” (Gn 1:27), mas é preciso observar que a
sexualidade no texto bíblico não se refere apenas à genitalidade. A diferença sexual
afeta todos os elementos da corporeidade humana. Ela não afeta apenas o corpo, mas
caracteriza o ser humano como um todo. Não são as glândulas que têm demandas
sexuais, mas todo o ser humano. Os apetites sexuais não são direcionados apenas para
os órgãos sexuais do outro sexo, mas para a outra pessoa como um todo, como
portadora da determinação sexual. A diferenciação sexual não se limita à esfera
biofísica, mas também atinge a esfera psicológica, pois é um constitutivo antropológico.
A sexualidade é uma parte ineludível de todo ser humano, mas o ser humano não se
reduz à sua sexualidade. É Eros, não logos. e encontra a raiz de sua compreensão no
impulso vital que lança o indivíduo humano em direção ao outro por meio do desejo, da
proximidade, do contato, da comunicação, a fim de alcançar a comunhão.
A sexualidade orienta o homem em direção à alteridade: "Não é bom que o homem
esteja só; eu lhe darei uma companheira como ele" (Gn 2:18). O ser humano único
encontra sua plenitude na enriquecedora diferença e reciprocidade a ele dadas pelo
outro. Essa reciprocidade no amor é expressa na doação sexual: "Adão conheceu Eva,
sua mulher" (Gn 4:1). A diferenciação sexual na verdade pertence à semelhança do
humano com o divino, ou seja, ela o torna capaz de amar e ser amado. Como parte da
criação, a sexualidade, por um lado, é distinta da divindade e, por outro lado, é
caracterizada como a vontade e a marca de Deus em Sua criação.
O ser humano é sexuado e isso revela sua relacionalidade marcada pela alteridade.
Essa alteridade que o configura em sua identidade constitutiva é o que revela sua
vocação para ser a imagem de Deus, que é comunhão em seu ser mais íntimo. O próprio
termo - comunhão - fala da identidade de Deus Pai, Filho e Espírito Santo e da
identidade do ser humano, criatura desse Deus, criado à sua imagem e semelhança.
Ser humano é ser um filho da comunhão e não da solidão, é ser chamado e destinado
à comunhão.
A criatura humana é relacional e transcendente, aberta ao mundo, aos outros, a Deus. É
criatura destinada à comunhão. Por isso não se pode falar das núpcias entre o barro e
o sopro, entre a terra e o céu, entre a argila e o espírito sem evocar a sexualidade. Esta
não deve ser temida ou rejeitada como perigo ou lugar de tentação, mas acolhida como
constitutiva de humanidade e caminho de plenitude.
También te puede interesar
Lo último
La sabiduría del corazón
Corazón pensante para humanizar
Cuidar cuando no se puede curar
Nunca incuidables
Morir humanamente, morir acompañado
Morir con dignidad
Sanar, acompañar, humanizar
Medicina y cuidado