O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Para quem anda descrente da humanidade, o recente episódio do resgate de
doze adolescentes tailandeses de uma caverna inundada foi uma bela surpresa. Uma
onda de solidariedade se fez presente de um ponto a outro do planeta.
Uma corrente de desejos e sentimentos positivos apontava de todas as partes
na direção da caverna onde os meninos e seu treinador estavam confinados. O
heroísmo de tantos, que vieram de outros países para ajudar no salvamento, foi
admirável. Em época tão conturbada como a que vivemos, trata-se de um autêntico
reencontro da humanidade consigo mesma, como disse a acadêmica Rosiska Darcy
de Oliveira em recente artigo.
Os doze meninos e seu treinador permaneceram na caverna onde as fortes
inundações os surpreenderam isolados por longos dias com comida escassa e em
condições muito precárias. Quando foram encontrados, o mundo inteiro ficou
impressionado por estarem em boas condições físicas naquela situação limite que
viviam. Mas, para além disso, chamaram mais ainda a atenção de todos pela calma e
equilíbrio que demonstraram durante todo o processo de encontro, resgate e
salvamento.
De um grupo de adolescentes que formavam um time de futebol seria normal
esperar medo, pânico e agitação ao se perceberem confinados em uma caverna
escura por vários dias, sem saber como fazer para sair dali e salvar-se. A
insegurança, aliada à escassez de recursos alimentícios e àexiguidade do espaço
seco em meio à caverna alagada, tudo contribuía para que os meninos estivessem
abalados e vulneráveis.
No entanto, o que se viu foi um grupo de crianças calmas, vivendo a dificuldade
pela qual passavam com um sorriso nos lábios e muita serenidade. Nenhum chorava
ou tinha qualquer reação de angústia e aflição. E assim permaneceram ao longo de
toda a operação de resgate com muita expectativas e adiamentos sem fim.
Qual o segredo dessa paz, desse equilíbrio? Que espírito adejava por aquela
caverna a ponto de conseguir tranquilizar desta maneira doze crianças em perigo?
Cremos que a resposta se encontra em algo que acompanha o ser humano desde
suas origens e que ao longo da história tomou formas e configurações diversas e
fascinantes: a espiritualidade. Ou seja, a capacidade do ser humano de elevar-se
além do sensorial e do racional, e experimentar a transcendência.
No caso do time dos “Javalis Selvagens” que comoveu o mundo, parece que a
fonte imediata daquele enfrentamento admirável de uma situação tão adversa
encontra sua raiz na pessoa do treinador Ekapol Chanthawong. Foi ele quem os
levou à excursão que acabaria isolando-os dentro da caverna. Mas foi igualmente ele
que os liderou no processo de resistência que lhes permitiu conservar a vida e as
energias, de modo que pudessem ser salvos e reconduzidos a suas famílias.
O treinador, antes de ocupar-se de times de futebol, foi monge budista e viveu
desde os doze anos em um mosteiro. Dali saiu para cuidar de sua avó doente. Ali
também aprendeu as técnicas e o método da meditação budista durante uma
década. E quando saiu, levou consigo a espiritualidade que havia vivido no mosteiro.
O mosteiro ficou gravado em seu interior e o faz até hoje manter contato com a
comunidade que ali reside. Segundo o abade do mosteiro, Chanthawong continua
meditando regularmente.
Parece que, ao constatar a situação de isolamento em que se encontrava junto
com os meninos, passou a ensinar-lhes a meditar. O objetivo era mantê-los calmos e
preservar suas energias enquanto ali estivessem. Assim se passaram duas semanas.
Cada um fazia uma hora de meditação ao dia, e isso os ajudou a resistir durante todo
o tempo em que estiveram na caverna até serem encontrados e resgatados.
Além de ajudar os meninos dando-lhes o que tem de melhor – sua
espiritualidade – o treinador deu-lhes vida concreta retirada de sua própria vida. Jejuou
e não se alimentou durante os dias de reclusão, a fim de que sobrasse mais dos
poucos alimentos de que dispunha o grupo para os meninos. E foi o último a ser
libertado e ver novamente a luz do sol. Certamente seus longos anos de ascese no
mosteiro foram fundamentais nessa atitude e nessa prática.
Neste momento, quando ainda vivemos, juntamente com a euforia da Copa do
Mundo, o alívio e a alegria de ver a todos os personagens da caverna finalmente sãos
e salvos, somos levados a refletir sobre a importância da espiritualidade para nossas
vidas.
A rica, admirável e milenar tradição budista pretende conduzir as pessoas em
direção à iluminação e à paz de espírito. Poderia ter sido outra tradição. O importante
neste caso é perceber a grandeza de nossa condição humana. Tão precária e frágil a
ponto de contar com forças limitadas para sobreviver em situações difíceis. Mas tão
incrivelmente bela e elevada de forma a enfrentar grandes dificuldades graças ao
espírito que anima uma corporeidade finita e mortal.
O time dos Javalis Selvagens e seu treinador nos sinalizam algo da maior
importância. É preciso cultivar o espírito, investir na vida espiritual, seja em que
tradição religiosa for, ou mesmo fora de qualquer uma. Certamente faz a vida mais
digna desse nome. E pode ajudar-nos muito quando nos virmos isolados em alguma
caverna escura e inundada sem vislumbrar saídas evidentes.
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