O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
As eleições terminaram e o resultado foi reconhecido inclusive internacionalmente. Mas
aqui na Pátria amada esse reconhecimento se viu ameaçado desde o dia seguinte pelas
manifestações insólitas de grupos expressivos de pessoas que não aceitavam a derrota e
abraçavam caminhões, se reuniam sob chuva intensa diante dos quartéis, clamavam por seres
extra terrestres. Também rezavam. Desde terço até cantos carismáticos. De tudo havia para
sublinhar o soturno inconformismo com o resultado democrático das urnas.
Depois veio a festa da posse do candidato eleito. E metade do Brasil respirou. Não
apenas pelo acontecimento em si, mas pela beleza da diversidade do país sendo exposta sem
medo, acolhida, celebrada, cantada e dançada. Foi bonito, digno e confortador para os que ali
viam seu voto representado e respeitado. Pensavam que, enfim, iam acabar os dias tensos e
sombrios, com ameaças pairando constantemente por todos os lados e a frágil democracia
ainda em perigo. Agora era realidade. Tínhamos novo governo e toda a riqueza da nossa
diversidade estava representada nos muitos ministérios que prometiam erguer o Brasil do poço
profundo onde fora mergulhado nos últimos anos.
Mas veio o dia 8 de janeiro. Eu almoçava com uma amiga muito querida e festejava seu
aniversário. À mesa havia vitoriosos e derrotados nas urnas. Reinava, porém, respeito e
harmonia. Ao voltar para casa, recebi um telefonema da aniversariante: “Estão quebrando
Brasília. Liga a CBN.” Incrédula, liguei. E ouvi o que parecia impossível. Começaram a chegar as
notícias alarmantes e assustadoras. O Brasil depredando a si mesmo em uma violência sem
sentido nem propósito. As instituições agredidas, os poderes enxovalhados, a pátria fraturada
e dolorida.
Presidente presente e enérgico, medidas tomadas, prisões etc. O evento em si foi
aparentemente superado. No entanto, a fratura foi grave, exposta e ainda não calcificou. Os
acontecimentos do dia 8 de janeiro mostram um Brasil dividido e que não conseguiu unificar-se
em torno da democracia legitimamente constituída. O clima, que devia ser de entusiasmo e
alegria pelo novo momento que o país começa a viver, mostra-se tímido como se temendo que
uma nova calamidade venha a se abater sobre a recém reconstruída democracia.
A pátria está dividida e – o que é pior – aparentemente sem desejo de reconciliação e
busca pela unidade. Mais: sem esperança que tal unidade – que inclui e deseja a diversidade –
algum dia possa vir a acontecer.
Como agravante dessa fratura visibilizou-se diante de nossos olhos chocados a
tragédia do povo yanomami. As imagens dos corpos profanados pela incúria e a
ganância recordavam outras tragédias e genocídios da história da humanidade, como Auschwitz,
Biafra etc. Pátria fraturada, pátria desnutrida, pátria profanada.
No entanto, ouvir os povos originários serem defendidos pela voz de uma ministra que
pertence a uma de suas etnias acende uma esperança. Igualmente sentir que se o cruel
desmatamento cessar ou diminuir consideravelmente a floresta poderá ser salva e seus povos
poderão dela retomar posse.
Não se pode deixar de esperar. Apesar da fratura, apesar da divisão, apesar das
iniquidades. Curar a pátria fraturada, soldar seus ossos quebrados, sanar suas feridas é
responsabilidade de todos hoje. E isso pode dar-se pela intransigente defesa da democracia,
pela insistência em promover o diálogo, pelo acolhimento das diferenças e a atenção a todas as
vítimas.
Nunca talvez se fez tão necessária a cultura do encontro a que tanto convida o Papa
Francisco. Em seus dez anos de pontificado, o Brasil lhe daria um bom presente se buscasse o
óleo da tolerância e da abertura para ungir fraturas e feridas, a fim de devolver ao povo sua
identidade e seu rosto feito de alegria e confiança em dias melhores.
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