O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Os corações de todos que ainda são humanos pulsam e choram por causa do que
acontece em uma franja de terra no Oriente Médio. Um ataque a pessoas pacíficas
que levavam sua rotina em casa, ou a jovens alegres que dançavam em uma rave se
transformou em horror. As vítimas continuam sendo contadas e os reféns são
buscados e esperados com angústia agônica quanto mais passam os dias e o silencio
é o único som ao redor.
A ofensiva não ficou sem resposta. E a espiral do conflito foi desencadeada e nada
parece detê-la. Pelo contrário só faz crescer. Toma proporções inter-regionais,
internacionais. O conflito é discutido, por chefes de estado, estudantes e professores,
autoridades civis e religiosas. Quem sobrevive no local sofre: falta água, comida,
segurança...e sobretudo paz. O que é mais desejado é o que parece mais distante.
A dor é o único sentimento que predomina e impregna o ar. Pode ser apalpada nos
gritos inconsoláveis das mães que enterram seus filhos, das crianças cujos pais
desaparecem e se veem sozinhas, nos anciãos perplexos que ainda não entendem o
que está acontecendo. Apenas padecem o horror da guerra que não querem nem
desejam e que lhes é imposta dia após dia.
Em meados do século XX uma jovem filósofa francesa chamada Simone Weil quis
sentir em seu corpo os horrores da guerra e alistou-se na coluna Durruti, na guerra
civil espanhola. Sua experiência foi tão traumática que por ela jamais foi esquecida.
Depois foi obrigada a fugir de Paris ocupada pelos nazistas para salvar a vida dos
pais, judeus que certamente seriam deportados ao campo de extermínio se ali
permanecessem.
Seu maior desejo era voltar e lutar ao lado dos aliados contra o nazismo. Não
conseguiu entrar de novo na França e morreu na Inglaterra. Porém deixou inspiradas e
profundas páginas sobre a guerra. Afirmou e escreveu que jamais uma guerra pode
ser considerada justa. Pois, em toda guerra, por mais justa que seja a causa do
vencedor, por mais justa que seja a causa do vencido, o mal que faz seja a vitória,
seja a derrota, não é menos inevitável. Esperar escapar disso é proibido.
Em meio à violência conflagrada e deflagrada, só existem perdas e ninguém ganha. A
verdade está obscurecida pela dor e pelo sangue e ninguém pode enxergar
adequadamente, preocupado que está em sobreviver a qualquer preço, ainda que este
preço sejam vidas alheias.
O que o mundo vive nos últimos dias é a profecia dita pelo Mahatma Gandhi: “Olho por
olho deixa o mundo inteiro cego.” Cego daquela cegueira que não reconhece o que
tem pela frente. Cego porque não percebe a destruição que gera em sua sede de
violência e nem se preocupa como vão viver as gerações que nascerão em meio aos
escombros e às cinzas. Cego porque só lhe importa o triunfo do agora e pensando
enxergar, na verdade está submerso na cegueira da razão e do coração.
Neste momento as bombas continuam a cair na franja de terra tão golpeada,
dilacerada entre ataques, revides, novos ataques e armas. E os corações daqueles
que empunham armas para atacar ou para se defender sob ordens de outros que não
as empunham desejam paz. E os sobreviventes que contemplam o que restou dos
seres amados desejam também paz.
Que venha a paz, não a que é ausência de guerra, mas sim fruto do desejo de vida. A
que limpa e abre os olhos, curando a cegueira. A que acredita no amanhã quando vão
poder crescer as crianças e os anciãos chegarão ao fim dos seus dias rodeados do
carinho de seus familiares. A que se alimenta de trabalho e afeto, pão e beleza. A que
aceita recuar para que todos cresçam. A que ultrapassa as simetrias para que o
mundo inteiro não padeça da cegueira mortal onde a luz não penetra. A que
reconhece que a guerra jamais é justa, pois a justiça anda de mãos dadas com a paz
e não floresce em meio à violência e à agressão.
Que venha a paz, sem vencedores nem vencidos. A paz onde a vitória é a da vida de
muitos e de todos.
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