O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Então é Natal mais uma vez. Natal com guerra, com desânimo, com dificuldades de
todo tipo. Natal difícil, de orçamento apertado. Natal com festa mitigada, Natal com
violência e descrença. Natal com escassez e dor. Porém, uma vez mais Natal com
benção.
A festa do Natal é a festa da luz e suas origens encontram o sentido de sua nomeação
no culto romano ao Sol Invicto ou Inconquistado. Coincidia a festa com a ocasião em
que o Planeta Terra, mergulhado até então nas trevas do frio e do inverno, começava
a movimentar-se em direção à luz do Sol.
O solstício de inverno (no Hemisfério Norte) é a noite mais longa do ano, o momento
em que os dias começam novamente a crescer, uma vitória simbólica do Sol contra a
escuridão. Acontece entre os dias 21 e 22 de dezembro e é comemorado desde
tempos imemoriais.
A festa cristã do Natal tomou a nomeação da festa pagã e procurou significar a Cristo
como o verdadeiro Sol Invencível. Quando o Imperador Constantino aderiu ao
Cristianismo e declarou a antes seita perseguida como religião oficial do Império,
também renomeou os símbolos e festas pagãs com nomes cristãos. A festa do Sol
Invicto foi a ocasião escolhida para a Festa do Natal ou do Nascimento de Jesus
Cristo fixada então pelo Imperador no dia 25 de dezembro. Jesus Cristo em seu Natal
é então reconhecido e cultuado como a Luz que domina sobre toda treva e que a tudo
ilumina.
No Natal celebra-se então a vinda de Deus o Criador, por meio de Seu Filho, ao seio
da Criação que é obra sua. Deus vem ao encontro da criação por ele muito amada,
mas que geme e sofre em divisões, conflitos e pecados. Aproxima-se como benção
ilimitada que a tudo acolhe e toma sobre si as divisões e falhas, as obscuridades e
trevas que impedem a vida de refulgir com plenitude. A benção do nascimento da
Criança divina, do Menino Jesus, do Divino Salvador derrama-se sobre toda a criação
e toda a humanidade, como sol invencível que o frio e a escuridão não conseguem
vencer ou tornar opaco.
Este Natal de 2023 apresenta-se difícil. Continua a haver mortes e luto. Crianças são
impedidas de viver em Gaza, na Ucrânia, nos bolsões de pobreza, nos espaços da
injustiça e da violência. A terra é agredida pela ganância humana e reage com
catástrofes à permanente e impune sucção de seus recursos em nome de um
equivocado progresso e crescimento desordenado. Os ódios e os preconceitos
dividem a humanidade, que abre as portas a exclusões e desprezos, recusando a
acolhida das diferenças e alteridades.
Mas em meio a toda essa dor recebeu-se um presente antecipado para festejar o
Natal. O Papa Francisco aprovou e promulgou a declaração Fiducia Suplicans, do
Dicastério para a Doutrina da Fé. O Cardeal Victor Manuel Fernandez, prefeito do
Dicastério, assina a declaração juntamente com o Papa. E o tema desta declaração
feita presente é a benção.
E de que benção se trata? É a benção para todos que se aproximam humildemente de
Deus reconhecendo a própria indigência e implorando acolhimento e amor. A benção
que a todos inclui, inclusive e muito especialmente aqueles e aquelas que vivem
uniões chamadas irregulares, ou seja, que não se enquadram dentro daquilo que a
Igreja Católica reconhece como vínculo indissolúvel: o matrimônio.
Deixando clara a diferença entre o matrimonio e outras uniões, como as vividas por
pessoas já anteriormente casadas e agora separadas ou por pessoas do mesmo sexo,
a declaração afirma que as pessoas que vivem essas uniões podem e devem ser
abençoadas. A benção é veículo da presença de Deus em todas as situações da vida
e ao ministrá-la a pessoas de fé que vivem situações consideradas irregulares, a Igreja
mostra seu rosto acolhedor e misericordioso.
Ser abençoado é ser agraciado com o amor e a misericórdia de Deus e ter o caminho
aberto para uma vida mais plena, mais aberta, mais caritativa e por isso mais santa. A
benção é um presente gratuito e belo que não pode ser negado a ninguém que por ele
suplica e a ele deseja. Como diz o Papa Francisco: “O Pai nos ama. E a nós nos toca
somente a alegria de bendizê-lo e a alegria de dar-lhe graças, e de aprender dele a
não maldizer, mas somente bem-dizer (abençoar).”
E termina a declaração Fiducia Suplicans: “Deste modo, cada irmão e irmã poderão
sentir-se na Igreja sempre peregrinos, sempre suplicantes, sempre amados e apesar
de tudo, sempre abençoados.”
Feliz Natal! Que a inocência e a pureza do Menino que vem até nós possam ensinarnos que em tudo e apesar de tudo somos todos os felizes destinatários de uma
benção infinita que se derrama sem restrições. Pois Jesus não aparece com trombetas
e fanfarras, nem põe condições restritivas a seu amor. Revela-se em um menino
nascido do ventre de uma mulher, envolto em faixas e deitado em uma manjedoura.
Desde ali nos abençoa a todos e todas, em tudo e apesar de tudo. Amém.
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