O poder do amor que não se desvia de nada… In memoriam
Jürgen Moltman e a vulnerabilidade de Deus
Podiam ser seus filhos, podiam ser meus netos, nossos netos. Todos que estavam ali
em Manchester quando o homem bomba se explodiu no estádio onde 21 mil pessoas, a
maioria jovens e até mesmo crianças, assistiam ao show da cantora Adriana Grande. De
repente, um ruído ensurdecedor se fez ouvir, uma luz forte cortou o espaço e os assentos do
estádio tremeram. O saldo foi de 22 mortos e 59 feridos.
O Estado Islâmico reivindicou a autoria do ataque e prometeu outros. Diante das
crianças e jovens mortos, de suas famílias, de todas as vítimas, a indignação não pode deixar
de tomar conta de nós. Podiam ser nossas crianças, nossos jovens. E mesmo não
sendo. São as crianças de alguém que hoje chora inconsolável como Raquel na Bíblia. No
entanto, há outro sentimento que convive com a indignação: a compaixão.
A palavra compaixão talvez seja uma das menos entendidas de todas as línguas. Em
geral, é associada à pena, piedade, comiseração. Ora, não há nada mais alheio ao sentido
visceral dessa palavra forte e ardente – compaixão – do que essas edulcoradas e humilhantes
definições. Compaixão é sofrer com, padecer solidariamente e em comunhão. Tem a ver com
justiça e restaurar dignidades atingidas e cruelmente vulneradas.
Compaixão é o sentimento que caracteriza o ser humano diante de seus irmãos em
humanidade que se encontram desumanizados pela pobreza, a violência e a opressão. É o que
move o coração dos justos diante da iniquidade e do sofrimento do outro. É o que nos enche
do desejo de comungar com a dor do outro e fazê-la nossa. Perante as vítimas inocentes da
injustiça, dentro de um ambiente de globalização e pluralismo como é o nosso hoje, existirá um
critério de entendimento e convivência irrevogavelmente reconhecido e vinculante para todos e,
neste sentido, capaz de ser reconhecido como verdadeiro?
Parece-me ser compaixão a palavra chave para encontrar a resposta. Pois ela é capaz
de suscitar a memória subversiva das vítimas para fazê-las de novo ativas na história. É este
conceito-atitude que procura exprimir a necessidade de o cristianismo abandonar a sua
ameaçadora autoprivatização acomodada. Compassio não é um sentimento a partir de cima ou
de fora, mas a percepção do sofrimento alheio, no qual se toma parte e que eticamente obriga.
Para esta compaixão, vale o imperativo categórico: “para, escuta e olha”.
A compaixão é a capacidade de partilhar o sofrimento do outro. Com efeito, o mais
terrível do sofrimento não é tanto ele em si, mas a solidão que nele se experimenta. Por isso,
alguns teólogos contemporâneos tratam de elaborar uma memoria passionis (memória da
paixão) como categoria de base de uma teologia em espaço público. Trata-se de recordar –
lembrar com o coração - os sofrimentos dos outros; fazer um rememorar público do sofrimento
alheio, incorporado de tal maneira ao uso público da razão que a esta imprima um selo.
A compaixão decorre, portanto, da universalidade da experiência do sofrimento. A partir
daí, entende a teologia contemporânea a necessidade de uma nova teologia política que
contribua vigorosamente para uma Igreja compassiva, funcionando a “memoria passionis”
como recordação provocadora que fundamenta uma nova ética. Os que sofrem, as vítimas de
todo tipo, teriam então uma autoridade. E esta autoridade seria a autoridade interior de um
ethos global, de uma moral mundial, que obrigaria todos os homens anteriormente a qualquer
ideologia, a qualquer entendimento. Uma moral que, por conseguinte, não pode ser posta de
lado ou relativizada por nenhuma cultura e por nenhuma religião, ou igreja.
Toda verdadeira mística, hoje, sobretudo após Auschwitz, não pode deixar de ser
inspirada por esse ethos. E uma política inspirada por este ethos seria mais e diferente de uma
pura executora das orientações do mercado, da técnica e de suas opressões objetivas em
nossos tempos de globalização. Seria mais humanizante e libertadora. Aquilo que a teologia
política explicitará na Europa do pós-guerra, que a teologia da libertação tematizará na América
Latina a partir dos anos 1970, muitos já viviam e vivem em suas vidas e experiências
espirituais, explicitando-o em sua práxis. Referimo-nos aqui a fenômenos como o dos padres
operários, na Europa dos anos 1950; a pessoas como Madeleine Delbrel, apóstola das ruas de
Paris; a Simone Weil, filósofa agnóstica que a partir da dureza do trabalho da fábrica vivido em
seu corpo encontra Deus e Jesus Cristo, já nos anos 1930, antes mesmo dos horrores da
guerra. E a tantos outros e outras que já viviam e narravam o que a teologia posteriormente
elaborou em estilo articulado e rigoroso.
É possível, portanto, afirmar que o critério universal da condição humana se encontra
na interpelação feita pela pobreza e a dor do outro e pela compaixão que ela origina. Todo este
movimento não é apenas ético, mas também místico - ou melhor, é místico porque ético e viceversa
- uma vez que na Revelação bíblica e no Cristianismo ambas as coisas não se
dissociam. Só encontrando aí sua fonte de inspiração primeira e iniludível pode a Teologia não
ser infiel à sua identidade e à sua missão.
A dor das vítimas e seus familiares enlutados em Manchester enquanto cantavam e
vibravam ao som da música nos inspira esses dois sentimentos: a indignação que deseja que
se tome uma medida para que acabe essa barbárie Mas, sobretudo, a compaixão que chora
com as vítimas na impotência de poder fazer algo mais eficaz ou melhor. E na compaixão a
chama da esperança se mantém, bruxuleando, viva apesar de tudo.
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