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"Vicente foi mártir do Evangelho da justiça e da paz, concretizadas em Cristo"
Irmãos caríssimos,
Mais uma vez nos reunimos nesta vetusta catedral, para celebrar São Vicente, diácono e mártir, padroeiro principal da diocese de Lisboa e também insígnia da cidade, tirada da nau que lhe trouxe as relíquias.
Quando aqui chegaram e depois se guardaram, estávamos ainda no início da nossa fase portuguesa e a coincidência da história e da insígnia é muito de sublinhar ainda hoje. Escolher para insígnia a lembrança de um mártir é também apelo a testemunhos fortes.
Vicente era diácono de Saragoça no princípio do século IV, quando os cristãos sofreram duramente a última perseguição romana. Não fugiu nem fraquejou, antes suportou vitoriosamente a tortura a que foi sujeito.
Vencê-lo seria um grande trunfo para os perseguidores e motivo de desistência para outros cristãos. Acabou por acontecer exatamente o contrário e o heroísmo do mártir confirmou-os ainda mais. Fez jus ao seu nome de “Vicente”, isto é, vitorioso.
Realizou-se plenamente nele e a partir dele o que o Evangelho nos disse há pouco: «Se o grão de trigo morrer, dá muito fruto». Porque só as vidas plenamente entregues frutificam depois em muitas outras, que lhes ganham o espírito e a força.
Mártir quer dizer testemunha. E testemunha é quem manifesta e garante, por palavras e obras, isso mesmo em que acredita, venha o que vier e custe o que custar.
Cruento ou incruento, espetacular ou desapercebido, o martírio marca sempre o mundo em que acontece, porque atinge o cerne da história. Cerne cujo veio profundo nem sempre é detetável, mas determina realmente o futuro.
Refiro-me ao verdadeiro martírio, importa dizer, em função do que nos define como humanidade no seu melhor, e não a contrafações que, mesmo com rijeza individual, nos desumanizariam a todos. O mal nunca tem mártires, apenas fanáticos.
Vicente foi mártir do Evangelho da justiça e da paz, concretizadas em Cristo. O seu exemplo frutificou depressa e muito, sendo logo proclamado e cantado do século IV em diante. Na tradição que retemos, as suas relíquias, trazidas de Valência para o cabo algarvio que as guardou na época árabe e moçárabe e trazidas para Lisboa com o nosso primeiro rei, permanecem como apelo ao mesmo ideal e incentivo a idêntica atitude.
A nau em que chegou fez-se emblema da cidade, as relíquias que guardamos apelam à sua imitação. Para que sejamos terra de justiça e de paz, evangelicamente praticadas.
Além de mártir, São Vicente foi diácono. Diácono significa servidor, sendo também um grau do sacramento da Ordem, configurando especialmente a Cristo, que disse estar no meio de nós “como quem que serve”.
Por isso é no seu dia que os diáconos do Patriarcado de Lisboa renovam o seu compromisso de Ordenação. Saúdo-os com muita estima e gratidão.
Também neste sentido e muito principalmente assim, Vicente se torna emblemático para a cidade e a diocese, fixando-nos a atenção numa figura exemplar de entrega aos outros e de prioridade a quem mais precisa de cuidado, material ou espiritual que seja.
Não é irrelevante para a cidade ter como brasão um sinal de serviço e não qualquer outro, de cariz bélico ou episódico que fosse. São Vicente lembra-nos a todos a prioridade que era a sua: o cuidado dos pobres e a atenção aos necessitados. Foi isso que trouxe à cidade com a nau que a representa. É em todas essas frentes que nos acompanha agora, decisores e cidadãos em geral, com especial encargo para os seus verdadeiros devotos.
Irmãos e amigos, celebrar São Vicente é muito mais do que cumprir uma data, ou manter uma efeméride. Datas e efemérides são assunto de calendário e lembrança. Celebração é bem mais do que isso, pois trata-se de confirmar em nós o que Deus já confirmou no mártir, ou seja, a vitória do Evangelho inteiramente vivido e convivido.
Disto precisamos e não menos. A tendência natural é amolecedora, em qualquer campo que seja, levando-nos facilmente a acomodar e a nivelar por baixo. Antes e depois de São Vicente, o historial cristão apresenta-se como um claro – escuro, entre personagens e momentos evangelicamente definidos e outros que diluem e até contradizem, gravemente por vezes, o nome que tão mal ostentam. Quando se corrompe, o ótimo dá o péssimo.
É então que figuras como o nosso mártir, pela autenticidade da fé e a caridade das obras, se tornam mais significativas e determinantes, para que o Evangelho fulgure, na Igreja e na cidade. Felizmente, não nos faltaram nem faltam tais figuras, hoje como outrora. Louvemo-las e prossigamos também nós.
Verifica-se que a difusão evangélica aconteceu sobretudo entre povos que sofreram perseguições religiosas, como sucedia na Península Ibérica no tempo de São Vicente. Pelo modo como resistiram e persistiram, aí mesmo criaram um bom futuro, de autêntica qualidade cristã. O próprio Cristo nos requer vigilantes, sem adormecimento do espírito nem enfraquecimento da prática.
A fronteira cristã, tão expansiva como aberta, define-se como testemunho e serviço. Testemunho da vida de Cristo em nós, que frutifica quando se entrega, qual grão de trigo que na terra se desfaz e multiplica. Serviço que nisso mesmo se traduz, na disponibilidade permanente em ser com os outros e para os outros, alargando ainda mais os braços da Cruz.
Assim foi Vicente no seu tempo e assim havemos de ser nós agora. No tempo de Cristo afinal, cuja caridade jamais acabará. Na cidade e na diocese, é um caminho aberto, a percorrer com todos.
A preparação em que estamos da próxima Jornada Mundial da Juventude é oportunidade de excelência para que todos – Igreja e cidade – nos reencontremos no grande serviço que ela há de ser. Juntaremos em alegria, fraternidade e paz uma multidão juvenil dos vários continentes, para a relançar, evangelicamente impulsionada, depois da depressão pandémica que atingiu duramente a sua faixa etária. É algo tão grandioso como urgente. Como a nau de Vicente, chegaremos a bom porto.
Sé de Lisboa, 22 de janeiro de 2022
Solenidade de São Vicente, Diácono e Mártir, Padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa
+ Manuel, Cardeal-Patriarca
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