Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
"Francisco tem sublinhado que o único modo de ser da Igreja no século XXI só pode ser este: 'o sinodal'"
1. Quando a Igreja aparece nos meios de comunicação social e mesmo no linguajar habitual, a referência é a Igreja enquanto instituição de poder e a hierarquia: Papa, cardeais, bispos, monsenhores, cónegos, padres... O que pensa a Igreja sobre isto ou aquilo? Esta pergunta está, em princípio, referida à hierarquia: o que pensam a Cúria Romana, os cardeais, os bispos, os padres?...
No entanto, a palavra Igreja/Igrejas apareceu no início do cristianismo para designar a comunidade/comunidades de cristãos e cristãs, baptizados, discípulos de Jesus, que acreditavam no Evangelho, notícia boa e felicitante: Deus é bom, Pai e Mãe, nunca, nem na morte, nos abandona, e todos os homens e mulheres são seus filhos, devendo, por isso, ser tratados como irmãos.
Evidentemente, aumentando o número, teve de haver coordenadores das comunidades — bispos, presbíteros, diáconos. Mas eram servidores — Jesus tinha dito que Ele veio “para servir, não para ser servido” — e não senhores. Foi numa história longa e complexa que foi surgindo a Igreja como instituição de poder, luxo e esplendor, com a hierarquia de um lado e os fiéis do outro, aqueles com todo o poder, os que mandam, e estes como os que obedecem. Uma observação: Não se viu no fim de semana passado, televisões, por exemplo, a exultar com o esplendor de barretes cardinalícios e mitras? Jesus, porém, tinha apelado à simplicidade e disse: “sois todos irmãos”.
2. Poucos dias depois da sua eleição, estive na televisão e disse que Francisco era um cristão, um Papa cristão, e esta era a sua novidade e revolução. Parece-me que esta minha perspectiva se vem confirmando cada vez mais, e a sua confirmação decisiva é a convocação do Sínodo sobre a sinodalidade, cuja primeira sessão se iniciou no passado dia 4, indo até ao dia 29, seguindo-se a segunda sessão em 2024.
Francisco tem sublinhado que o único modo de ser da Igreja no século XXI só pode ser este: “o sinodal”. Que se entende por sinodal? Trata-se de uma palavra de origem grega e significa caminhar juntos. De facto, se, pelo baptismo, somos todos membros da Igreja, então todos devem participar, pois o que é de todos por todos deve ser decidido e assumido.
O documento apresentado para o debate nesta sessão é ele próprio sinodal. De facto, é o resultado de todo um processo. Começou em 2021 nas dioceses de todo o mundo e todos os católicos foram convocados a pronunciar-se, daí resultando documentos das conferências episcopais. Houve um segundo momento: foram convocadas as assembleias continentais, e surgiram os respectivos textos finais. E aí está o texto final, o “instrumento de trabalho” para o Sínodo, onde se sublinha “o apelo claro a superar uma visão que reserva só para os ministros ordenados (bispos, presbíteros, diáconos) toda a função activa na Igreja, reduzindo a participação dos baptizados a uma colaboração subordinada”, e se advoga “uma concepção ministerial da Igreja no seu conjunto”, com o reconhecimento da “dignidade baptismal” como eixo de toda a participação na Igreja.
Trata-se de um documento com muitas perguntas, algumas verdadeiramente revolucionárias, pois colocam a Igreja perante uma autêntica revolução, revolução que começa logo por, pela primeira vez, um Sínodo dos Bispos contar com padres, religiosos e religiosas e leigos, homens e mulheres, com direito a voz e voto. Exemplos:
“Que medidas concretas são necessárias para chegar às pessoas que se sentem excluídas da Igreja por causa da afectividade e sexualidade (por exemplo, divorciados recasados, pessoas LGBTQ+, etc.)?” Aqui, permito-me confessar que, assumindo toda a responsabilidade naquela situação concreta, não hesitei em dar, numa celebração adequada, uma bênção a um casal de lésbicas.
Face à tragédia brutal da pedofilia, vem ao debate a urgência de criar “uma cultura de prevenção de todo o tipo de abusos”, e a pergunta: Não deverá haver também na Igreja “separação de poderes, órgãos de supervisão independentes?”.
“A maior parte das Assembleias continentais e as sínteses de numerosas Conferências episcopais pedem que se considere de novo a questão do acesso das mulheres ao diaconado. É possível colocar a questão e de que modo?”. Aqui, pergunto eu como foi possível ignorar a pergunta pela ordenação presbiteral e episcopal das mulheres. Um escândalo.
No contexto dos ministérios ordenados, é inevitável a pergunta pelo celibato opcional e pela ordenação de homens casados. Mais: “É possível que, sobretudo em lugares onde o número de ministros ordenados é muito reduzido, os leigos possam assumir o papel de responsáveis pela comunidade? Que implicações tem isto na compreensão do ministério ordenado?” E “como deve evoluir o papel do Bispo de Roma e o exercício do primado numa Igreja sinodal?” Aí está uma questão essencial, quando é necessário aprofundar a sinodalidade com as outras Igrejas cristãs, num compromisso ecuménico renovado.
No contexto de um mundo globalizado e da urgência do combate por um mundo justo e em paz e de todas as questões levantadas pelas novas tecnologias, como não convocar para “gestos de reconciliação e de paz com outras religiões”, no aprofundamento do diálogo inter-religioso?
3. Quando há quem clama: “Heresia!”, só se pode esperar que Francisco se mantenha em funções até 2025 para estabelecer o “documento final” do Sínodo que não permita voltar atrás.
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