Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
"Com o fim do trabalho simbólico e o império da imagem e da técnica, o mundo humano vai definhando"
No século VIII, no contexto da ameaça militar e religiosa do islão a Bizâncio, a tradição cristã viu-se confrontada com a pureza radical do monoteísmo islâmico e a sua proibição das imagens. Os imperadores bizantinos mandaram destruir as imagens e os seus defensores foram perseguidos como idólatras. Embora esta luta dos iconoclastas tenha acabado com a vitória dos iconódulos (veneradores das imagens), pois Jesus Cristo é a imagem visível de Deus, nunca deveria esquecer-se que Deus é infinitamente transcendente e, se o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, Deus não é à imagem do Homem.
Diz-se perante certas imagens: vale mais uma imagem que milhares de palavras. Pense-se, por exemplo, naquelas imagens televisivas das crianças esfomeadas no mundo — pequenos andaimes de ossos a soçobrar, num olhar suplicante e quase morto —, e o soco que nos dão no estômago e na alma.
Aqui, porém, do que se trata é da civilização da imagem, daquela civilização que quer a visualização de tudo. Trata-se daquilo para que uma aluna uma vez me chamou a atenção. Ela tinha feito um trabalho sobre A Sociedade do espectáculo, de Guy Debord, um dos breviários da geração de 68, e disse-me: “Viu a transmissão televisiva do funeral do Papa João Paulo II? Aquilo era espectáculo, donde o mistério da morte foi arredado. Logo a seguir, em sequências vertiginosas, lá estavam imagens publicitárias e futebol: tudo o mesmo.” Ah! A alienação com o futebol: “pensar com os pés” (Carlos Fiolhais)!
Há perigos na civilização da imagem?
Nela, por paradoxal que pareça, julga-se que se está perante a hiper-realidade, mas o que se vai impondo é o virtual, com a consequente perda da realidade real.
Depois, é isso: a vertigem de imagens e de informações, em voragem. Mas, então, onde está o tempo da possibilidade de distanciamento e de crítica? Ah!, e a própria crítica, se existe, tem de ser dada em espectáculo, dissolvendo-se então com ele e nele, pois, como escreveu José María Mardones, mais do que permitir a reflexão e a crítica, do que se trata é de vender e “seduzir”.
Na civilização da imagem, importante não é ser, mas parecer e aparecer. Quem não aparece existe? Por isso, lá dizem os políticos, e não só eles, que decisivo é aparecer, mesmo se se diz mal deles.
De novo José Maria Mardones: o predomínio da imagem, com a pretensão de mostrar tudo, até a interioridade do sujeito, tem outra consequência perversa: “o esvaziamento da intimidade”. Por causa disso, eu fui uma vez à televisão para prevenir e chamar a atenção para a necessidade da distinção não apenas do público e do privado, mas do público, do privado e do íntimo. De facto, não anda para aí tudo desavergonhadamente escancarado, sem réstia de pudor?...
O símbolo, esse, abre para a profundidade do real e para o mistério e vincula à transcendência. Na civilização da imagem, onde a realidade é o que se mostra, vive-se na imediatidade do que há, do mercado das sensações, do empírico-funcional, e, portanto, na in-transcendência.
E uma conclusão, que pode parecer abrupta. Por vezes, há quem se espante com a indiferença e a distância dos jovens em relação à política. Seja-me permitido espantar-me com esse espanto. Razão de fundo – não a única, evidentemente, – para esse distanciamento está em que o espectáculo da política e dos políticos é muitas vezes deprimente e pouco recomendável. Não está a própria Assembleia da República, por exemplo, a sucumbir por vezes à falta de vergonha, à má-criação?...
Com o fim do trabalho simbólico e o império da imagem e da técnica, o mundo humano vai definhando. Sem o símbolo, também não há lugar para a religião na sua autenticidade e verdade. E corre-se o perigo da idolatria.
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