Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
"No ser humano há o lógico e a pulsão, o cálculo e a emoção, a razão e o impulso"
Juntamente com Espinosa, terá sido Hegel que levou mais longe o racionalismo: "o que é racional é real e o que é real é racional", escreveu. Mas Ernst Bloch objectou que o processo do mundo não pode desenrolar-se a partir do logos puro. Na raiz do mundo tem de estar um intensivo da ordem do querer. Bloch, como também Nietzsche e Freud, foi beber a Schopenhauer. Este foi um filósofo que sublinhou do modo mais intenso que, na sua ultimidade, a realidade não é racional, pois há uma força que tem o predomínio sobre os planos e juízos da razão: a vontade.
Aí está um dos motivos fundamentais por que, na tentativa da explicação dos fenómenos humanos, a nível individual e social, temos sempre a sensação de que há uma falha no encadeamento das razões. É que no ser humano há o lógico e a pulsão, o cálculo e a emoção, a razão e o impulso.
O próprio cérebro, que forma certamente um todo holístico, tem três níveis. Paul MacLean fala dos três cérebros integrados num, mas também em conflito: o paleocéfalo, reptiliano; o mesocéfalo, o cérebro da afectividade; o córtex com o neo-córtex em conexão com as capacidades lógicas. A luz racional é afinal apenas uma ponta num imenso oceano inconsciente, impulsivo e também tenebroso.
Por isso, não só não conseguimos uma harmonia permanente como é necessário estar de sobreaviso contra a ameaça de descalabros e catástrofes mortais. A nível individual, familiar, colectivo... Também não se pode esquecer que a política, local, nacional, regional, internacional, é conduzida por seres humanos que vivem estas tensões...
Por outro lado, porque o ser humano não é redutível à lógica computacional, é capaz de criações artísticas divinas, do amor gratuito, do luxo generoso, da música — a música, “arte ‘pura’ por excelêcnia”, “a mais ‘mística’, a mais ‘espiritual’ das artes é talvez simplesmente a mais corporal”, como escreveu Pierre Bourdieu, e que não é preciso compreender para se ficar emocionado e extasiado.
O ser humano é pela sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, de impulso e razão, e o impulso pode transtornar a razão e dominá-la.
Assim, também não há sociedades completamente harmónicas, pois inevitavelmente são atravessadas pelo conflito. As tensões, os conflitos e até as contradições variam, mas estão sempre presentes.
A título de exemplo, algumas tensões e conflitos na nossa sociedade.
Trata-se, por um lado, de uma sociedade altamente competitiva, que exige enorme preparação científica e técnica, educação esmerada, com trabalho aturado, permanente e competente, mas que, por outro, está impregnada de consumismo, propaga o hedonismo, valoriza em extremo o prazer. Esta tensão torna complexa a educação, não favorecendo de modo nenhum a harmonia pessoal. Tanto mais quanto, num tempo em que é preciso lutar duramente para arranjar um lugar ao sol, programas alarves de televisão e concursos rasteiros dão fama rápida e quantias fabulosas.
A nossa sociedade não quis ter filhos, e evidentemente estava no seu direito. Mas, agora, somos fatalmente confrontados com a inversão na pirâmide das idades, com todas as consequências daí advenientes, por exemplo, no domínio da segurança social. Por outro lado, teremos de importar mão-de-obra estrangeira, o que pode trazer benefícios sem conta; ao mesmo tempo será, porém, necessário estarmos preparados para conflitos que inevitavelmente surgirão. Pergunta-se: que politica tem sido feita a favor da família?
A medicina, felizmente, foi prolongando a esperança de vida das pessoas. Mas, por outro lado, que preparação existe para lidar com a velhice dos outros e com a velhice própria? Chega-se a este paradoxo: a mesma medicina que fez aumentar a média etária vai ser solicitada para ajudar na eutanásia, matar.
Nunca o indivíduo quis auto-afirmar-se com tanta força, mas ao mesmo tempo talvez nunca como hoje se tenha sentido que se vive num processo sem sujeito. Nunca a velocidade foi tão veloz, mas a partir de um certo limiar tomamos consciência de que se vai cada vez mais devagar: o desespero do trânsito nas cidades. Nunca houve tantos meios de comunicação, e tanta solidão!; e não há também a angústia do afogamento em tanta informação? Aí está mais de meio mundo a “dedar” e onde está o espírito crítico?
Reclama-se os direitos individuais, mas esbateram-se as fronteiras entre o privado e o público, quase desapareceu a intimidade, e, a pretexto da segurança, rendemo-nos à vigilância do Big Brother, que não é só o da televisão, mas o de Orwell. Quando olhamos para a rapidez dos transportes, para tanta tecnologia comunicativa e outra que devia facilitar a vida, aparentemente devíamos nadar em tempo livre; de facto toda a gente desespera com a falta de tempo e nunca o stress terá sido tanto.
O conflito maior é o dos pobres, milhares de milhões. Quando nos países ricos se come de mais e se sofre de obesidade e se queima ou deita comida ao mar em ordem à manutenção dos preços, sabe-se que há hoje no mundo mais de 800 milhões de pessoas com fome.
Depois, é a guerra, guerras espalhadas por todo o mundo.
Há três impulsos fundamentais com os quais é preciso aprender a viver, como disse Kant: o prazer, o ter e o poder. Afinal, a contradição é fundamentalmente sempre a mesma: tornarmo-nos escravos do prazer, do ter e do poder, esquecendo-nos do ser e de ser. Aí estão os Pandora Papers, etc.
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