Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
"A experiência do transcender constitutivo do ser ser humano"
O famoso filósofo Johann G. Fichte tem um texto com perguntas que todo o ser humano, minimamente atento à vida, alguma vez fez, pois são perguntas que ele transporta consigo, melhor, que ele é.
O filósofo alemão escreveu que o ser humano não deixará facilmente de resistir a uma vida que consista em “eu comer e beber para apenas logo a seguir voltar a ter fome e sede e poder de novo comer e beber até que se abra debaixo dos meus pés o sepulcro que me devore e seja eu próprio alimento que brota do solo”; como poderei aceitar a ideia de que tudo gira à volta de “gerar seres semelhantes a mim para que também eles comam e bebam e morram e deixem atrás de si outros seres que façam o mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que gira sem cessar à volta de si?... Para quê este horror, que incessantemente se devora a si mesmo, para de novo poder gerar-se, gerando-se, para poder de novo devorar-se?”
Também Ernst Bloch, o filósofo ateu religioso, escreveu que o ser humano nunca há-de contentar-se com o cadáver.
Há aquelas perguntas in-finitas: Quem sou? Para onde vou? Onde estarei quando cá já não estiver?
E o dramático é que, por um lado, a vida depois da morte é completamente não figurável – para lá do espaço e do tempo, não é possível qualquer representação. Nunca poderei dizer: morri, estou morto -serão outros a dar a notícia.
Por outro lado, é insuportável acabar, andar, na vida, de sentido em sentido e, no fim, afundar-se no nada – não ir para lado nenhum. Sendo o ser humano “alguém”, quem afirma o nada no termo vê-se confrontado com a pergunta: como se passa de “alguém” a “ninguém”? Como conceber uma consciência morta? Afinal, o que era antes de morrer? Se tudo desembocasse no nada, qual seria, em última análise, a distinção entre bem e mal, honestidade e desonestidade, honradez e mentira, verdade e falsidade, já que no fim tudo se afundaria no nada e tudo seria o mesmo: precisamente nada?
Nos seus inícios, o cristianismo triunfou, porque a uma sociedade angustiada com a morte se apresentou com a promessa inaudita da esperança na ressurreição. Mas hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos mortos e a vida eterna tornaram-se não plausíveis e sem interesse. Parece que as pessoas se contentam com o consumo diletante, entretidos na corrida louca de uma agitação paralisante, desfrutando instantes e entregando-se à morte inevitável, numa espécie de melancolia resignada.
E não será assim porque hoje se ama pouco, pois só o amor requer eternidade? Mas então, numa sociedade sem eternidade, o que resta são só instantes, que não podem fazer texto nem encontrar sentido último, porque se devoram uns aos outros.
Para quem se não perdeu na superfície da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de passagem, é a experiência do transcender constitutivo do ser ser humano. O Homem nunca se contenta com o dado nem com os factos brutos: vai sempre além, num além sem limites, transgredindo, pela esperança, as próprias fronteiras da morte.
A primeira Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste na libertação da escravidão no Egipto: Deus não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a culminação da primeira: Deus não tolera a morte. Jesus crucificado para dar testemunho da Verdade e do Amor não morreu para o nada, mas para o interior de Deus, que é a Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta aos Romanos, o Deus que cria a partir do nada ressuscita os mortos.
É tão próprio do ser humano saber que é mortal como esperar para lá morte. Mas é mesmo de esperança que se trata, pois a morte é a experiência de que o Homem não pode dar a si mesmo a salvação – ela é dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza a palavra imortalidade duas vezes: uma em que se diz que só Deus possui a imortalidade, e outra em que se afirma que o nosso corpo mortal há-de revestir-se da imortalidade da ressurreição, o que significa que a imortalidade é um dom.
Então o crente dirá ao não crente, como escreveu o teólogo J. I. González Faus, recentemente falecido: espero que no fim, para lá da morte, encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de braços abertos para ti, encontrarás esse Mistério último acolhedor.
Mas o não crente poderá responder ao crente: verás a surpresa que vais ter quando vires que não há nada.
Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a pena viver como vivi, se vivi no bem. Acreditando, a minha vida foi mais humana, abriu-se a mais dimensões da realidade, encontrou Fundamento e Sentido último. A prova de que a fé dos crentes não é vã só pode ser a luta contra todas as formas de morte: a fome, a guerra, a injustiça, e a favor da liberdade, da dignidade, da paz, da realização plena de todos os seres humanos.
Páscoa feliz!
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