Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
"A única ou mesmo a principal relação com o outro é a da vergonha?"
Um rosto é um milagre. Há hoje no mundo oito mil milhões. Nenhum igual a outro: cada rosto é único. Um rosto é a visita do infinito e a sua manifestação viva no finito. Que é um rosto senão alguém que se mostra na sua aparição?
Esse rosto concentra-se no olhar. Sim, o olhar. Não é dos olhos que se trata. O mistério é o olhar. Um dia terão perguntado a Hegel o que se manifesta e vê num olhar. E ele: “o abismo do mundo”.
Num olhar, o que há é alguém que vem à janela de si e nos visita. Também por isso, para tornar alguém anónimo, venda-se-lhe os olhos. Faz-se o mesmo a um condenado à morte, porque é intolerável o seu olhar. E, quando alguém morre, coloca-se-lhe um véu sobre o rosto: já está para Além...
Até para nós próprios somos por vezes terrivelmente estranhos. Quem nunca se surpreendeu ao olhar para o seu próprio olhar no espelho? “Quem é esse ou isso que me vê, desde o abismo?”
"Um dia terão perguntado a Hegel o que se manifesta e vê num olhar. E ele: 'o abismo do mundo'"
Essa estranheza assalta-nos até no olhar de um animal: um cão velho e abandonado que nos olha não nos deixa indiferentes. Mas é sobretudo o olhar de alguém que é perturbador. Ele há o olhar triste. O olhar meigo. O olhar arrogante. O olhar do terror. O olhar da súplica. O olhar de gozo. O olhar que baila num sorriso. O olhar concentrado. O olhar disperso. O olhar da aceitação. O olhar do ódio e desprezo. O olhar compassivo. O olhar do desespero. O olhar sedutor. O olhar envergonhado. Ah!, o olhar da despedida final para sempre! O olhar morto, que já não é olhar!
O olhar é a presença misteriosa de alguém, que ao mesmo tempo se desvela e se vela. Já ao nível do tal cão velho e abandonado pode erguer-se o sobressalto da pergunta: o que é e como é ser cão? Mas é uma sensação de abismo, um belo dia, precisamente perante o olhar de alguém, ficarmos paralisados com a interrogação: o que é ser alguém outro? Porque a outra pessoa – o outro homem ou a outra mulher – não é simplesmente outro eu, mas um eu outro. Explicitando: o que é e como é ser o Alberto ou a Eunice, viver-se a si mesmo por dentro como o Alberto ou a Eunice? Nunca saberei. E como é o mundo visto a partir deles? E como é que ele ou ela me vêem? O quê e quem sou eu realmente para eles, a partir do seu olhar?
E como é que eu sei que há o outro, não enquanto outro eu – ainda no prolongamento de mim --, mas precisamente como um eu outro, sujeito inapreensível? Sartre teorizou que esse saber é dado de modo indubitável no sentimento da vergonha. E dá o exemplo de alguém que, num hotel, está, concentrado, a espreitar pelo buraco da fechadura. Ouve passos no corredor. Então, no sentimento paralisante da vergonha, ao ficar objectivado pelo olhar do outro a quem os passos pertencem, sabe que há um sujeito que não é ele. Ele é objecto para esse sujeito que o vê: é visto.
Sem o outro não há eu, como diz o conceito de Ubuntu, próprio da cultura africana, que diz precisamente: “Eu sou eu através de ti”, e na solidariedade e colaboração, não na competição. Se a única ou a principal relação com o outro fosse a da vergonha, não se aguentava viver, porque “o inferno” seriam “os outros”.
"Em A Gaia Ciência, uma miúda pergunta à mãe: 'É verdade que Deus está em toda a parte?', respondendo ela própria: 'eu considero isso uma indecência'"
Seria insuportável estar sob a vigia de um olhar omnipresente. Por isso, para Nietzsche, o olhar de Deus é intolerável. Em A Gaia Ciência, uma miúda pergunta à mãe: “É verdade que Deus está em toda a parte?”, respondendo ela própria: “eu considero isso uma indecência.” Então, em Assim Falava Zaratustra, escreve: o Deus que objectiva o Homem “tinha de morrer, porque via com olhos que viam tudo. A sua piedade desconhecia o pudor: ele metia-se nos meus recantos mais sórdidos.”
Também Jean-Paul Sartre cortou relações com Deus, o Todo-Poderoso, por causa do seu olhar horrorosamente indiscreto. “Uma só vez tive a sensação de que Ele existia. Brincava com fósforos e queimava um pequeno tapete; estava eu a dissimular o meu crime quando, de súbito, Deus viu-me; eu rodopiava na casa de banho, horrivelmente visível, um alvo vivo. Salvou-me a indignação. Blasfemei, murmurei como o meu avô: ‘Maldito o nome de Deus, nome de Deus, nome de Deus’. Nunca mais Ele me contemplou.”
É certo que só vimos a nós na correlação com o outro. Sem outros eus enquanto tus, não há eu. Mas, repito, será que a única ou mesmo a principal relação com o outro é a da vergonha? Entre mim e o outro há uma tensão dialéctica: de distância e proximidade. Afinal, a relação com o outro pode ser de rivalidade ou de aliança, de destruição ou de criação. Então, precisamente no olhar do outro enquanto próximo inobjectivável, irredutível, de que não posso dispor, pode revelar-se o apelo misterioso da proximidade infinita do Deus infinitamente Outro.
Conta a Bíblia, no livro do Êxodo, que Moisés quis ver Deus e Deus respondeu: “Farei passar diante de ti toda a minha bondade... mas tu não poderás ver a minha face, pois o Homem não pode contemplar-me e continuar a viver”. O Senhor disse: “Está aqui um lugar próximo de mim; conservar-te-ás sobre o rochedo. Quando a minha glória passar, colocar-te-ei na cavidade do rochedo e cobrir-te-ei com a minha mão, até que Eu tenha passado. Retirarei a mão, e poderás então ver-me por detrás. Quanto à minha face, ela não pode ser vista.”
Segundo a fé cristã, o Deus invisível deixou-se ver no rosto e no olhar misericordioso de Jesus. Ele deixa-se ver no rosto de todos os homens, mulheres e crianças: “O que fizestes a um destes mais pequeninos — dar de comer, de beber, curar, visitar... — a mim o fizestes”.
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