Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
" Vivemos realmente em sociedades que fizeram da morte tabu, o último tabu"
Houve tempos em que o mês de Novembro era dedicado aos mortos e à meditação sobre a morte. Isso hoje não acontece nem se permite que aconteça. Vivemos realmente em sociedades que fizeram da morte tabu, o último tabu. Na realidade, se tradicionalmente tabu era o sexo, hoje o sexo está às escâncaras por toda a parte. E vivemos em sociedades do ter, do consumir, da corrupção, do imediatismo, submersos a dedar na alienação das redes sociais, numa correria louca não se sabe para onde, enfim, no niilismo... E aí estão as depressões, os suicídios, o vazio ameaçador da falta de sentido...
Nunca fui de modo nenhum favorável ao pensamento mórbido da morte, que envenena a vida com o medo e o terror, usados também muitas vezes pela Igreja para aterrorizar as consciências e exercer o poder.
Quero um pensamento sadio da morte por causa da vida. Conscientes do limite, viver intensamente. Quando? Agora. E com dignidade e fazendo de nós e da sociedade o que verdadeiramente queremos. Com tempo e a tempo... Ai!, como o pensamento sadio da morte acabaria com tanta vaidade oca e toda a procissão de ilusões, boçalidades, malquerenças...
Aqui, na perplexidade, lembro sempre o filósofo ateu religioso, Ernst Bloch, o filósofo da esperança com quem tive o privilégio de conversar. O núcleo do seu pensamento encontra-se na obra O princípio esperança, com a enciclopédia de todas as esperanças. Para ele, “o importante é aprender a esperar”, mas sem ilusões. De facto, por mais longe que se vá na erradicação dos males que nos afligem, ficará sempre a morte.
Não acreditava em Deus, mas, “onde há esperança, há religião”. Na juventude, admitiu a reencarnação. Na maturidade, teorizou sobre “o núcleo do Humanum extraterritorial à morte”. Lá está: “por dignidade pessoal nego-me a que o Homem acabe como o gado”; “a desesperança é em si, tanto em sentido temporal como objectivo, o insustentável, o insuportável em todos os sentidos” e “não me resigno a que a última melodia que escutarei sejam as pazadas de terra despejadas sobre os meus despojos”.
O teólogo J. Moltmann contou-me que, poucos dias antes da morte, lhe perguntou como reagia a este desafio, tendo ele respondido: “estou curioso” – note-se, porém, a força da palavra alemã “neugierig”, com o sentido de ansioso por novidades. Moltmann também escreveu que “na véspera de morrer, ao entardecer, ele escutou mais uma vez a sua música mais querida, a abertura de Fidelio, de Beethoven, com o sinal das trombetas para a libertação dos cativos no final”.
Essa passagem, que associava à Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, 13, 16: “quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá dos céus e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro”, sempre o comovera. É que, como escreveu, “em Beethoven, pré-anuncia-se a chegada de um Messias. Erguem-se desde as masmorras sons de liberdade e de recordação utópica. O grande momento chegou, a estrela da esperança cumprida no aqui e agora.” A mim também me confessou o que também escreveu: “o cristianismo venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’”.
A última vez que fui a Tubinga, passei pelo cemitério para uma homenagem. O que estava escrito na lápide tumular: “Denken heisst Überschreiten” (Pensar significa transcender).
Aí está o que mais faz falta nas nossas sociedades: Pensar.
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