Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
Uma crise muito mais profunda que revela suas raízes antes da pandemia
Continuo com o discurso de Francisco ao Corpo Diplomático, com perspectivas para o mundo pós-pandemia, a partir das crises causadas ou postas a nu pela pandemia.
A crise provocará um aumento dramático de migrantes e refugiados. Desde a Segunda Guerra Mundial que o mundo não tinha ainda assistido a “um aumento tão dramático do número de refugiados. Por isso, torna-se cada vez mais urgente “erradicar as causas que obrigam a emigrar”, como também se exige um esforço comum para apoiar os países de primeiro acolhimento, que se encarregam da obrigação moral de salvar vidas humanas.
Neste contexto, Francisco espera com interesse “a negociação do Novo Pacto da União Europeia sobre a migração e o asilo”, observando que “políticas e mecanismos concretos não funcionarão sem o apoio da vontade política necessária e do compromisso de todas as partes, incluindo a sociedade civil e os próprios migrantes.”
Para Francisco, todos estes temas críticos “põem em relevo uma crise muito mais profunda, que de algum modo está na raiz das outras e cujo dramatismo veio à luz precisamente com a pandemia”. É a crise política, que desde há uns tempos mina de modo violento muitas sociedades e “cujos efeitos devastadores emergiram durante a pandemia”. Aumentam os conflitos políticos e a dificuldade, se não a incapacidade, para “encontrar soluções comuns e partilhadas para os problemas que afligem o nosso planeta”. Manter viva a democracia é, portanto, um gigantesco desafio neste momento histórico. “A democracia baseia-se no respeito recíproco, em que todos possam contribuir para o bem da sociedade, e em considerar que opiniões diferentes não só não ameaçam o poder e a segurança dos Estados, como, pelo contrário, num confronto honesto, se enriquecem mutuamente e permitem encontrar soluções mais adeqaudas para os problemas que é preciso enfrentar.”
Infelizmente, “a crise da política e dos valores democráticos afecta também a nível internacional, com repercussões em todo o sistema multilateral.” É o momento de levar adiante reformas, para que as organizações internacionais recuperem a sua vocação essencial de servir a família humana, preservar a vida de todas as pessoas e a paz. “Todo o corpo vivo precisa de reformar-se continuamente e, nesta perspectiva, estão também as reformas que implicam a Santa Sé e a Cúria Romana.”
Constata: “Há demasiadas armas no mundo”. Por isso, é necessário intensificar o esforço no âmbito do desarmamento, contra a proliferação do armamento nuclear, que deve estender-se às armas químicas e às armas convencionais. Um equilíbrio baseado no medo apenas tende a minar a confiança entre os povos. Confessa: “Não posso esquecer outra grave praga do nosso tempo: o terrorismo”, com tantas vítimas entre pessoas inocentes e indefesas.
Esta é talvez a mais grave: “a crise das relações humanas, expressão de uma crise antropológica geral, que diz respeito à própria concepção da pessoa humana e à sua dignidade transcendente.”
Longos períodos de confinamento também permitiram mais tempo passado em família e redescobrir “as relações mais queridas”. Não há dúvida de que “o casamento e a família constituem um dos bens mais preciosos da Humanidade” e “o berço de toda a sociedade civil”. Perante a dimensão mundial dos problemas, a família cumpre as novas incumbências que sobre ela recaem, “em primeiro lugar oferecendo aos filhos um modelo de vida fundado sobre os valores da verdade, liberdade, justiça e amor”. Também é um facto que nem todos puderam viver com serenidade na própria casa e muitas vezes as situações degeneraram em violência doméstica e “sabemos que lamentavelmente são as mulheres que, amiúde com os seus filhos, pagam o preço mais alto”. Aliás, a pandemia aprofunda as desigualdades sociais e as mulheres são as mais atingidas.
A pandemia obrigou a longos meses de isolamento, e é preciso pensar nos estudantes que não puderam frequentar presencialmente a escola ou a univeridade. Até certo ponto colmatou-se a situação através de plataformas educativas informatizadas, mas isso contribuiu também para o aprofundamento das desigualdades — não se pode esquecer que a escola é factor decisivo a favor da igualdade —, e o aumento “da dependência das crianças e adolescentes da internet e das formas de comunicação virtual em geral, tornando-os ainda mais vulneráveis e sobre-expostos às actividades cibercriminais.”
As exigências para conter a difusão da pandemia acabaram por limitar também várias liberdades fundamentais, incluída a liberdade de religião. Ora, não podemos “passar por alto que a dimensão religiosa constitui um aspecto fundamental da personalidade humana e da sociedade; mesmo quando se está a procurar proteger vidas humanas da difusão do vírus, a dimensão espiritual e moral da pessoa não se pode considerar como secundária relativamente à saúde física.”
Por outro lado, “a liberdade de culto não constitui um corolário da liberdade de reunião, pois deriva essencialmente do direito à liberdade religiosa, que é o primeiro e fundamental direito humano. Por isso, é necessário que seja respeitada, protegida e defendida pelas autoridades civis, como a saúde e a integridade física. Aliás, um bom cuidado do corpo nunca pode prescindir do cuidado do espírito.”
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