Há um preceito sufi que reza: “Se a palavra que vais dizer não for mais bela do que o silêncio, não a digas”
Para falar, ouvir o Silêncio
"Sobre os abusos de menores, reconheceu que houve secretismo e encobrimento"
Entre 3 e 6 deste mês de Novembro, o Papa Francisco esteve no Bahrain, no Fórum a favor do Diálogo: Oriente e Ocidente pela coexistência humana. No regresso, no avião, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa. É sempre enriquecedor dar atenção a essas conferências, até porque há temáticas múltiplas da actualidade e uma espontaneidade acrescentada. Seguem-se alguns temas.
2. Na sua viagem, lembrou outro jornalista, “falou sobre os direitos fundamentais, incluindo os direitos das mulheres, a sua dignidade, o direito a ter o seu lugar na esfera social pública”...
Resposta de Francisco. “Temos de dizer a verdade. A luta pelos direitos da mulher é uma luta contínua. Há lugares onde a mulher tem igualdade com o homem, mas noutros não. Pergunto: porque é que uma mulher tem de lutar tanto para manter os seus direitos?” E falou na ferida da mutilação genital feminina: “isto é terrível”. Como é que a humanidade não acaba com isto, que é “um crime, um acto criminoso! As mulheres, segundo dois comentários que ouvi, são material ‘descartável’ — isso é mau, claro — ou são ‘espécies protegidas’. A igualdade entre homens e mulheres ainda não é universal, e existem estes incidentes: as mulheres são de segunda classe ou menos. Temos de continuar a lutar. Deus criou-os iguais, homens e mulheres. Todos os direitos das mulheres provêm desta igualdade. E uma sociedade que não é capaz de colocar a mulher no seu lugar não avança.” As mulheres têm uma capacidade de gerir as coisas de outra maneira, que “não é inferior, mas complementar”. E uma constatação: “Vi que no Vaticano sempre que entra uma mulher para fazer um trabalho as coisas melhoram: por exemplo, o vice-governador do Vaticano é uma mulher e as coisas mudaram para bem.” Só um exemplo.
Igualdade de direitos, mas também igualdade de oportunidades; caso contrário, empobrecemo-nos. Há ainda muito caminho para percorrer. Porque “existe o machismo. Venho de um povo machista. Lutamos não só pelos direitos, mas porque precisamos que as mulheres nos ajudem a mudar.”
3. Quanto à Ucrânia. “O Vaticano está permanentemente atento”. Ele foi à embaixada russsa falar com o embaixador, “um humanista”, está disposto a ir a Moscovo para falar com Putin, falou duas vezes ao telefone com o Presidente Zelensky... O que lhe chama a atenção é “a crueldade, que não é do povo russo... Tenho uma grande estima pelo povo russo, pelo humanismo russo. Basta pensar em Dostoievsky, que até hoje nos inspira... Sinto um grande afecto pelo povo russo e igualmente pelo povo ucraniano”.
E atirou, desolado: “Num século, três guerras mundiais! A de 1914-1918, a de 1939-1945, e esta! Esta é uma guerra mundial, porque é certo que, quando os impérios de um lado e do outro se debilitam, precisam de fazer uma guerra para sentir-se fortes e também para vender armas. Hoje creio que a maior calamidade do mundo é a indústria armamentista. Por favor! Disseram-me, não sei se está certo ou não, que, se não se fabricassem armas durante um ano, acabar-se-ia com a fome no mundo.” E contou que sempre que vai a cemitérios e encontra o túmulo de um jovem morto numa guerra, chora.
4. Sobre os abusos de menores, reconheceu que houve secretismo e encobrimento. Agora, é a “tolerância zero”. “Nisto hoje a Igreja está firme, pois, mesmo que só tivesse havido um caso, seria trágico.”
5. Mesmo a terminar, Francisco mostrou alguma preocupação com o “caminho sinodal” da Igreja na Alemanha: “Aos católicos alemães digo: a Alemanha tem uma grande e bela Igreja evangélica; não quero outra, que não será (nunca) tão boa como aquela; quero-a católica, em fraternidade com a evangélica.”
Durante a semana até ontem, a Conferência Episcopal Alemã esteve no Vaticano e o caminho sinodal foi um dos temas centrais nos encontros com o Papa e a Cúria. Os bispos alemães apelam à “unidade” da Igreja. Mas o Presidente da Conferência, G. Bätzing, também foi lembrando que Roma foi e é “ponto de referência para a fé católica e para toda a Igreja”, mas “não é a origem e a meta do caminho que tomamos na fé”; “a origem e a meta desse caminho é Jesus Cristo”.
Assim, pessoalmente, pergunto, por exemplo: o que impede acabar com o celibato obrigatório ou a ordenação de mulheres para presidirem à celebração da Eucaristia? Onde está afinal a igualdade de direitos?
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